
Retalhos da vida são mensagens que levamos na mochila, guardamos em caixinhas e escrevemos na agenda. São lembranças de algum lugar, são saudades que levamos no coração. Lembranças que sem perceber nos faz sonhar, nos da forças para seguir em frente, levando na bagagem histórias da gente.Foi no primeiro dia do ano, que eu comecei a minha cortina de retalhos, eu queria reorganizar a caminhada até o momento exato, e me preparar para o que vinha pela frente, mas para abrir a caixinha da vida e passar retalho por retalho é preciso ter coragem e sem vaidades ir lembrado o valor das coisas simples. Primeiro eu examinei se estava preparada para tantas recordações, se estava me sentindo forte, foi quando, eu percebi que deveria abrir e ser eu mesma, respeitar minha essência. Me permitir sentir, ser intensa e sem medos, dar as minhas melhores gargalhadas, olhar sem julgamentos, perdoar-me, chorar. Sentir que depois de alguns temporais vem a calmaria! Foi assim que eu abri a minha caixinha do passado para colocar as coisas em ordem e deixar o que passou nas datas exatas, me situando e caminhando em frente, de forma leve e consciente.Então eu abri a janela e com a Luz que entrou no meu quarto eu me senti serena, abri a minha caixinha e lá estavam cores, retalhos, flores, lacinhos vermelhos, sapatinhas, botões, retratos, rendinhas, meu vestido predileto, amores, saudades, gargalhadas, lágrimas, abraços, noites lindas. A cada objeto que eu pegava trazia consigo uma lembrança de minhas aventuras de menina, eram coisas de algum lugar, que sem perceber me faziam sonhar, sonhar de modo simples. Naquele momento peguei meu caderno azul de poesia que escrevia nele ao lado de uma jabuticabeira, com nove anos eu já tinha meu mundo real, minhas canetas prediletas, minhas cores favoritas e minhas palavras encantadas de poeta pequenina.Eu já reconhecia a maneira de meu pai pisar no chão, e poderia ouvir o barulho dos seus chinelos Raider azul, quando ele vinha se aproximando. Escrevia sobre ele em meus rascunhos.Quando peguei o retalho de minha mãe, foi tão especial, lembrei-me dela me perfumando e me vestindo com carinho, mesmo sabendo que eu subiria no pé de goiaba da casa da vovó e voltaria cheia de terra nos braços.O quintal de minha casa já foi mar, campo de batalha, já foi roça e já foi casa... Durante um dia de brincadeira com a Naia. Já se fez araiá e a Nick com seu chapeuzinho de palha fez pintinhas e colocou as suas botinhas prediletas.Cores e tecidos distintos, cada um com sua beleza e doçura, tinha um retalho que me lembrava do cheirinho da comida da vovó, do meu avô cuidando do quintal. Das plantas e das galinhas. Do primeiro lambari que pesquei, do sol dando as caras em uma manhã que fomos acampar, dos chocolates de pimenta de minha mãe, do cheiro do café, das corridas de bicicleta na chuva, do banco da praça, do sorvete com guaraná, do meu perfume de pitanga, dos meus amigos de colegial, da casa da Vó Gueinha, das ruas que passei, das noites em que chorei, dos chocolates que ganhei, dos sonhos que vivenciei, das canetas coloridas, das noites mal dormidas, das luvas de lacinho, do cabelo curtinho, das visitas na pizzaria, das gargalhadas espontâneas, dos beijos que escrevi, de quem me fez sorrir, das comidas que preparei, dos professores que encontrei,dos braços que me deitei, dos livros que eu li, das promessas impensadas que eu fiz, das fotos que eu guardei, dos dias que não sonhei, das poucas viagens que eu fiz, do álbum que ainda não preenchi, da blusa do Mickey, do meu cabelo ao vento e da saudade de tudo isso. E da vida que eu preciso seguir.Retalhos são partes da história da menina que sou, das frases que escrevi, das flores que plantei, das escolhas que fiz. São lembranças que nos fazem voar, voar para o mundo da imaginação e para continuar a caminhar é preciso ter os pés no chão, olhos abertos e disposição. Chega a hora que precisamos por a s rendas finais da cortina e parar de derramar lágrimas de saudades. Entender que cada coisa tem seu lugar na história da vida,foi especial e as lembranças levo no meu coração.É preciso deixar a menina lá atrás, nos momentos felizes que se pode recordar e criar laços com o presente, o presente de estar vivo, podendo conquistar novos retalhos, dar novos sentidos, sentir novos sabores. Olhando a vida de frente, tendo novos valores, colocando cada coisa em seu lugar.Retalhos de uma vida é pra quem tem coragem de abrir a caixinha de saudades e com os retalhos fazer uma cortina, para a luz do sol bater todas as manhas e iluminar, as pessoas que em minha vida sempre terão seu valor.E foi assim que eu peguei os retalhos de minha vida, e reconheci o valor dentro do universo em que fui criada, porque nessa caminhada eu aprendi e ensinei, colhi e plantei, senti e transmiti, falei e ouvi, chorei e sorri... E sobrevivi. E viva, vou vivendo a minha bela vida.
Jornal Centro-Oeste
Mineiros-GO
2009